Endometriose é uma doença crônica em que tecido semelhante ao que reveste o útero por dentro (o endométrio) cresce fora dele, em ovários, trompas, peritônio e, em casos mais raros, outros órgãos. Esse tecido reage aos hormônios do ciclo menstrual como se estivesse no lugar certo: inflama, sangra e cicatriza, só que sem ter para onde drenar. O resultado mais comum é dor pélvica crônica, que pode vir acompanhada de cólicas incapacitantes, dor durante a relação sexual e, em parte dos casos, dificuldade para engravidar. É diante desse quadro, quando a dor não cede o suficiente ao tratamento padrão, que cresce a busca por cannabis medicinal, CBD e THC.
O tratamento padrão combina terapia hormonal, para suprimir a menstruação e reduzir a atividade do tecido ectópico, e, quando indicado, cirurgia laparoscópica para remover as lesões. Nenhum dos dois garante controle total da dor, e uma parcela de pacientes segue sintomática mesmo em tratamento. É nesse espaço, entre o que a medicina oferece e o que ainda dói, que produtos de cannabis entram como uma das alternativas buscadas pelas pacientes.
A pergunta deste texto não é se cannabis "funciona" para endometriose. É outra: o que existe, de fato, comprovando isso, e o que é apenas plausibilidade biológica ainda não testada na doença.
A pergunta não é se cannabis funciona para endometriose. É o que, de fato, prova isso.
O racional biológico existe. A prova clínica, até aqui, não

O argumento mais citado a favor de canabinoides para dor de endometriose é a presença do sistema endocanabinoide, os receptores CB1 e CB2, que reagem tanto a compostos produzidos pelo próprio corpo quanto a canabinoides externos como THC e CBD, em tecidos ligados à reprodução e à inflamação. Se esses receptores estiverem presentes e ativos em tecido endometrial e endometriótico, há uma via teórica pela qual canabinoides poderiam modular dor e inflamação nesse contexto específico.
O problema é que esta reportagem não localizou, até o fechamento desta apuração, nenhum estudo com autor, ano, periódico e identificador que sustente essa afirmação de forma verificável para tecido endometriótico humano ou animal. Isso não significa que a literatura internacional seja omissa no tema: é plausível que existam publicações pré-clínicas relevantes sobre o assunto. Mas significa que, sem a citação específica em mãos, a afirmação não pode ser tratada como fato estabelecido neste texto. Fica registrada como hipótese com racional biológico, não como achado verificado.
Nenhum ensaio clínico específico foi localizado
Para dor crônica em geral, já existem ensaios clínicos randomizados robustos com canabinoides. Um exemplo é o estudo de fase 3 com o canabinoide VER-01 em dor lombar crônica, com desenho controlado, N definido e desfechos medidos por escalas validadas (Karst et al., 2025, Nature Medicine; Meissner et al., 2025, Pain and Therapy). Esses estudos servem como referência de como a ciência mede esse tipo de efeito quando o faz com rigor, mas não podem ser usados como evidência para endometriose. Dor lombar crônica e dor pélvica por endometriose têm etiologias, tecidos-alvo e mecanismos inflamatórios diferentes. Extrapolar resultado de um para o outro seria um erro de leitura, não uma inferência razoável.
Especificamente sobre cannabis, CBD ou THC e dor crônica por endometriose, esta apuração não localizou nenhum ensaio clínico randomizado, nenhum estudo observacional, nenhuma survey estruturada de pacientes nem relato de caso publicado em base indexada como PubMed/MEDLINE ou Cochrane Library. Também não foi possível confirmar se alguma sociedade médica brasileira ligada a dor pélvica ou saúde da mulher, como a FEBRASGO ou a Sociedade Brasileira de Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva (SBEC), já se posicionou formalmente sobre canabinoides para essa condição.
Ausência de evidência não é evidência de ausência, mas também não é validação clínica.
Essa ausência de estudo específico não equivale a uma resposta negativa. "Não encontramos evidência" é diferente de "a evidência mostra que não funciona", mas também é diferente de "está comprovado, só falta a Anvisa liberar". O estado real, hoje, é o meio do caminho: uma hipótese biologicamente coerente, sem teste clínico dedicado que a confirme ou refute para esta doença.
CBD e THC não são a mesma coisa nesse relato

Quando pacientes com dor crônica relatam melhora com cannabis, é comum que o relato não distinga qual composto foi usado, e a diferença importa. CBD (canabidiol) não é psicoativo e age por vias distintas do THC; relatos de uso costumam associá-lo a redução de ansiedade e melhora do sono, efeitos que podem reduzir a percepção de dor de forma indireta, sem necessariamente ter ação analgésica direta comprovada para dor pélvica. THC (tetrahidrocanabinol) atua principalmente via receptor CB1, tem efeito psicoativo e é o composto mais associado, na literatura geral de dor crônica, a efeito analgésico direto, mas também a sedação, tontura e, em uso continuado, tolerância.
Nenhuma dessas descrições é específica de endometriose: são generalizações da farmacologia dos dois compostos, válidas para o contexto de dor crônica em geral, sem substituir um estudo dedicado à condição discutida aqui.
Contexto regulatório: nenhuma indicação formal existe no Brasil
A Anvisa publicou, em fevereiro de 2026, a RDC nº 1.015/2026, no Diário Oficial da União, com vigência a partir de 4 de maio de 2026, que instituiu a Autorização Sanitária (AS) para produtos de cannabis e revogou a RDC nº 327/2019. Nem a norma, nem o Q&A oficial da agência sobre AS, nem a página institucional da Anvisa sobre cannabis medicinal mencionam endometriose como indicação, uso aprovado ou objeto de bula de qualquer produto autorizado.
Para casos fora do rol de produtos com AS, segue vigente a RDC nº 660/2022, que trata da importação excepcional por pessoa física mediante prescrição médica. É um caminho de acesso, não uma indicação: a norma regula o processo de importação, não valida eficácia para uma doença específica. Nenhuma das duas normas substitui a outra; tratam de escopos diferentes, autorização de produto de um lado, importação individual de outro.
Na prática, isso significa que qualquer uso de cannabis medicinal para dor de endometriose no Brasil hoje ocorre como prescrição off-label, sem bula que respalde essa indicação, dentro do critério clínico do médico prescritor, sob as regras de prescrição vigentes no país.
Riscos e o que fica de fora deste texto
Uso concomitante de canabinoides com anti-inflamatórios, com terapia hormonal (pílula combinada, DIU hormonal, análogos de GnRH) e o risco de sedação são pontos citados com frequência em discussões sobre cannabis e dor crônica ginecológica. Não foi possível localizar, nesta apuração, uma fonte farmacológica primária, bulário oficial ou nota técnica de órgão regulador que detalhe especificamente essas interações no contexto de endometriose. Até que essa fonte exista, o alerta correto é genérico: uso concomitante de medicamentos deve ser informado ao médico prescritor, e cannabis não substitui diagnóstico, acompanhamento ginecológico nem o tratamento hormonal ou cirúrgico já estabelecido para a doença.
Também não foi possível confirmar, nesta apuração, um dado oficial de prevalência de endometriose no Brasil com fonte do Ministério da Saúde ou da FEBRASGO. Números soltos sobre "quantas mulheres têm endometriose" circulam amplamente sem citação verificável, por isso não entram neste texto.
O que muda, e o que não muda
Nada, na regulação brasileira ou na literatura científica hoje disponível, sustenta cannabis medicinal como tratamento para endometriose. O que existe é uma hipótese mecanística plausível, ainda sem teste clínico dedicado, e uma prática real de pacientes recorrendo a CBD e THC para tentar controlar uma dor que o tratamento padrão nem sempre resolve. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: a busca é compreensível, e a evidência que a sustente formalmente ainda não existe. Cirurgia laparoscópica e terapia hormonal continuam sendo o tratamento-base da doença; cannabis, quando usada, entra hoje como manejo de sintoma sob critério médico, não como alternativa a esse tratamento, e não com respaldo de um ensaio clínico que ainda não foi feito, ou que este texto não conseguiu localizar.
Referências
- Anvisa. RDC nº 1.015/2026. Diário Oficial da União, edição de 2 de fevereiro de 2026 (vigência a partir de 4 de maio de 2026).
- Anvisa. RDC nº 660/2022. Diário Oficial da União, edição de 30 de março de 2022.
- Anvisa. Perguntas e respostas sobre Autorização Sanitária de produtos de cannabis, 2026.
- Karst, M. et al. Ensaio clínico de fase 3 com canabinoide VER-01 em dor lombar crônica. Nature Medicine, 2025. (citação de contexto de dor crônica; não é evidência de endometriose).
- Meissner, M. et al. VER-01 comparado a opioides em dor crônica. Pain and Therapy, 2025.
Leituras relacionadas
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