Não foi possível confirmar, dentro das fontes disponíveis para esta apuração, nenhum ensaio clínico randomizado, controlado e publicado testando CBD, CBG ou THC especificamente para os sintomas do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Ainda assim, a pergunta se repete com frequência crescente em grupos de pais de crianças com o diagnóstico e em comunidades de adultos: dá para trocar o metilfenidato ou a lisdexanfetamina por cannabis medicinal, na forma de CBD ou CBG? A busca é real e compreensível, os estimulantes têm efeitos colaterais conhecidos (perda de apetite, insônia, irritabilidade) e o acesso ao tratamento nem sempre é simples, mas hoje não existe resposta científica sólida para quem pergunta.
O que existe, de fato
Dentro do que foi possível verificar para esta reportagem, não há indício de nenhum ensaio clínico randomizado e controlado, publicado e revisado por pares, testando CBD, CBG ou THC especificamente para sintomas de TDAH, seja em crianças e adolescentes, seja em adultos. Também não há registro de revisão sistemática, do tipo produzido pela Cochrane Library, dedicada a essa combinação específica.
Isso não quer dizer que a pesquisa nunca tenha sido tentada. Uma busca mais aprofundada em bases como PubMed/MEDLINE e Cochrane Library pode revisar esse quadro no futuro; dentro do que foi possível apurar com as fontes disponíveis para esta reportagem, nenhum estudo desse tipo foi localizado.
O que circula com mais força são relatos: pessoas com TDAH que dizem sentir alívio percebido ao usar CBD ou CBG. Relato de alívio percebido é dado real sobre experiência subjetiva, mas não é evidência de eficácia. Sem grupo comparador, sem cegamento e sem controle de fatores como efeito placebo, expectativa e viés de quem já procurou o produto por acreditar que funcionaria, esse tipo de relato não permite concluir que o canabinoide tratou o sintoma.
O ensaio com CBG que ainda não pode ser confirmado
Parte do que alimenta a expectativa em torno do tema é a menção, em círculos de discussão sobre cannabis medicinal, a um ensaio clínico com CBG voltado a TDAH, supostamente em fase de recrutamento. Não foi possível localizar, com as fontes disponíveis para esta apuração, um registro correspondente em bases públicas de ensaios clínicos como o ClinicalTrials.gov: nenhuma instituição responsável, fase, desenho ou número de participantes previsto pôde ser confirmado até o fechamento desta reportagem.
Até que esse registro apareça em uma fonte verificável, tratar esse ensaio como um fato em andamento é prematuro. O que existe, no momento, é uma menção sem fonte primária confirmada, não um estudo em curso comprovado.
O mecanismo hipotético não é o mesmo que efeito clínico

Existe uma linha de raciocínio que liga canabinoides ao TDAH pela via do sistema dopaminérgico: como o transtorno envolve regulação atípica de dopamina, e como há evidência de que o sistema endocanabinoide interage com vias dopaminérgicas no cérebro, seria plausível supor algum efeito de CBD, CBG ou THC sobre os sintomas.
O raciocínio é coerente como hipótese, mas hipótese mecanística não é prova de eficácia terapêutica. A neurociência está cheia de interações biológicas plausíveis que, quando testadas em ensaios clínicos, não se traduziram em benefício mensurável para o paciente. Sem um estudo que meça o efeito direto em sintomas de TDAH, com dose definida, comparador e desfecho pré-especificado, a hipótese continua sendo isso: hipótese.
O que já se sabe sobre risco
Uma preocupação frequentemente levantada é o uso de THC por adolescentes, população em que o cérebro ainda está em desenvolvimento e na qual o TDAH tem prevalência elevada. A cautela em torno disso é compreensível diante do que já se sabe sobre neurodesenvolvimento em geral, mas não foi possível localizar um número específico (magnitude de risco, tamanho de efeito, razão de chances) que sustente uma afirmação quantificada de aumento de risco em adolescentes com TDAH em particular.
Sem esse dado, a forma correta de tratar o tema aqui é reconhecer a preocupação como algo levantado na literatura de neurodesenvolvimento de forma mais ampla, sem atribuir a ela uma magnitude que não pode ser sustentada com o que foi apurado até aqui. Essa cautela também aparece, de forma indireta, na interação entre CBD e outros medicamentos, tema ainda pouco mapeado quando o paciente é adolescente.
O que continua sendo o tratamento de primeira linha

Enquanto isso, o tratamento padrão para TDAH, estimulantes como metilfenidato e lisdexanfetamina, associados ou não a terapia comportamental, segue sendo o que tem décadas de estudo acumulado por trás. Isso não significa que seja perfeito nem que sirva igualmente bem para todo paciente, mas é o ponto de comparação que qualquer alternativa proposta precisaria superar ou ao menos igualar em ensaios controlados, o que ainda não aconteceu com canabinoides.
Não foi possível localizar, nas fontes consultadas, um posicionamento formal de sociedade médica brasileira, como Sociedade Brasileira de Pediatria, Associação Brasileira de Psiquiatria ou entidade dedicada ao TDAH, especificamente sobre uso de cannabis no transtorno. A ausência de posicionamento não deve ser lida como endosso silencioso nem como reprovação, apenas como um vazio que ainda não foi preenchido publicamente.
A RDC 1.015/2026, que reorganizou parte do acesso a produtos de cannabis no Brasil, trata da autorização sanitária do produto, não de indicação terapêutica por condição. Ela não diz nada, a favor ou contra, sobre o uso de cannabis para TDAH especificamente. Isso vale mesmo quando o paciente já passou pelo processo de saber quem pode prescrever cannabis medicinal no Brasil: a receita autoriza o acesso ao produto, não confirma eficácia para uma condição que a norma não trata.
O que muda, e o que ainda não
Nada, hoje, mudou na prática clínica recomendada para TDAH. O que existe é uma lacuna dupla: de um lado, uma demanda crescente e legítima por alternativas ao tratamento padrão; de outro, uma literatura científica que ainda não produziu o tipo de estudo capaz de responder se CBD, CBG ou THC ajudam, atrapalham ou não fazem diferença nos sintomas do transtorno.
Hipótese mecanística não é prova de eficácia terapêutica.
Isso pode mudar. Se o ensaio com CBG mencionado em círculos de discussão for confirmado em bases públicas de registro e avançar, ele será a primeira peça concreta de um quebra-cabeça que hoje é, na melhor das hipóteses, uma hipótese com bom motivo para ser testada, e não uma resposta já disponível para quem pergunta. Enquanto isso, o corpo de evidência mais consolidado em cannabis medicinal segue sendo o de outras condições, como a epilepsia refratária, que tem décadas de ensaios clínicos publicados atrás de si, algo que o TDAH ainda não tem.
Perguntas frequentes
CBD ou CBG podem substituir o metilfenidato no TDAH? Não há, até o momento, ensaio clínico publicado que sustente essa substituição. O que existe são relatos de alívio percebido, que não equivalem a evidência de eficácia.
Existe um ensaio clínico testando CBG para TDAH? Há menções a um estudo em fase de recrutamento em círculos de discussão sobre cannabis medicinal, mas nenhum registro público confirma instituição, fase, desenho ou status atual.
Qual é o tratamento de primeira linha para TDAH hoje? Estimulantes como metilfenidato e lisdexanfetamina, associados ou não a terapia comportamental, seguem sendo a base do tratamento com décadas de estudo acumulado.
Referências
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. RDC 1.015/2026. Diário Oficial da União.
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