Em 2021, o maior ensaio clínico já conduzido sobre cannabis medicinal e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) chegou a um resultado que contraria boa parte do discurso em torno do tema: nenhuma das formulações de cannabis testadas (rica em THC, rica em CBD ou a combinação das duas) foi estatisticamente superior ao placebo em reduzir os sintomas do transtorno. O estudo, publicado na PLoS ONE por Bonn-Miller et al., 2021, acompanhou 80 veteranos americanos com TEPT crônico em um desenho cruzado, randomizado e controlado por placebo, o padrão-ouro para testar se um tratamento funciona.
Nenhuma das formulações de cannabis testadas foi estatisticamente superior ao placebo em reduzir os sintomas do transtorno.
É um dado incômodo para uma narrativa consolidada. TEPT é hoje uma das indicações mais citadas por pacientes, associações e movimentos de veteranos quando o assunto é cannabis medicinal. Mas o que a literatura científica efetivamente mostra é mais modesto, mais heterogêneo e, em pelo menos um recorte importante, aponta na direção oposta à do senso comum.
O que é TEPT, rapidamente
TEPT é um diagnóstico clínico, não um sinônimo genérico de "trauma". Ele se caracteriza por um conjunto específico de sintomas que persistem após exposição a um evento traumático: revivência involuntária (flashbacks, pesadelos), evitação de lembranças associadas, alterações negativas de humor e cognição, e hiperexcitação, irritabilidade, hipervigilância, dificuldade de concentração e de sono, conforme descrito em manuais diagnósticos como a CID-11 e o DSM-5. O quadro é comum em populações expostas a combate militar, mas também em vítimas de violência sexual, acidentes e outras formas de trauma civil. A maior parte da literatura disponível sobre cannabis e TEPT, porém, vem de amostras militares e de veteranos, o que limita a generalização para outros perfis de trauma.
O maior ensaio clínico do campo não bateu o placebo

O estudo de Bonn-Miller e colegas testou cannabis fumada em três formulações, alto-THC, alto-CBD e uma combinação balanceada de THC e CBD, contra placebo, por três semanas cada, em veteranos com TEPT. O desfecho primário foi a escala CAPS-5, o instrumento clínico padrão para medir gravidade de sintomas de TEPT.
O resultado: todos os grupos, incluindo o placebo, apresentaram redução significativa nos escores ao longo do estudo, mas nenhuma formulação de cannabis superou o placebo de forma estatisticamente robusta. Em outras palavras, o efeito observado pode estar mais associado à expectativa do participante, ao acompanhamento clínico regular ou à passagem do tempo do que à substância em si.
Isso não significa que cannabis não produza nenhum efeito subjetivo: o desenho do estudo não teve poder estatístico para analisar separadamente subdomínios específicos, como sono isolado, algo que outros estudos menores tentaram capturar. Mas significa que a evidência de maior peso metodológico disponível hoje não sustenta a afirmação de que cannabis trata TEPT de forma superior a um comprimido inerte administrado com o mesmo cuidado clínico.
Sinais menores, em amostras pequenas demais para generalizar
Fora do RCT de Bonn-Miller, o que existe é majoritariamente estudo pequeno, sem grupo controle robusto, ou relato de caso.
Um ensaio canadense com apenas dez participantes testou nabilone (um canabinoide sintético que mimetiza o THC, já aprovado para outros usos) especificamente para pesadelos recorrentes ligados a TEPT em militares. O resultado, publicado por Jetly et al., 2015, foi favorável: redução nos pesadelos comparado a placebo, em desenho cruzado. É um sinal, mas com dez pessoas não há como saber se ele se sustenta numa amostra maior.
Para CBD isolado, o que existe é ainda mais frágil: uma série de casos com 11 pacientes, sem grupo controle, publicada por Elms et al., 2019, relatou queda nos escores da escala PCL-5 ao longo de oito semanas de uso adjuvante de CBD. Série de casos não isola efeito placebo, regressão à média ou melhora espontânea: é hipótese a testar, não achado a repetir como se fosse conclusão.
Os dados observacionais divergem, e a divergência importa

Fora dos ensaios controlados, dois estudos observacionais chegam a conclusões opostas, e a diferença de desenho explica em parte por quê.
Um estudo retrospectivo com pacientes do programa de cannabis medicinal do Novo México, conduzido por Greer, Grob e Halberstadt, 2014, relatou redução autorrelatada superior a 75% nos escores CAPS entre 40 pacientes que já usavam cannabis pelo programa. É um número expressivo, mas o desenho tem um problema estrutural: só entraram no estudo pacientes que já buscavam e permaneciam no programa, ou seja, pessoas predispostas a relatar benefício, sem comparação com quem não usou.
Na direção oposta, a maior coorte já publicada sobre o tema, conduzida por Wilkinson, Stefanovics e Rosenheck, 2015 com dados do sistema de veteranos dos Estados Unidos e cerca de 2.276 pacientes, encontrou o oposto: uso de cannabis associado a maior gravidade de sintomas de TEPT e a mais comportamento violento ao longo do tempo, em comparação com quem nunca usou ou parou de usar.
Nenhum dos dois estudos prova causalidade em qualquer direção. O de Wilkinson pode refletir causalidade reversa: pacientes com quadros mais graves podem ser mais propensos a buscar cannabis por conta própria, não o contrário. O de Greer pode refletir viés de autosseleção e efeito placebo. O que os dois juntos mostram é que a relação entre uso de cannabis e curso clínico do TEPT, fora de ensaio controlado, não é limpa nem unidirecional, e que "veteranos relatam melhora" não é o quadro completo da literatura observacional.
A revisão sistemática mais citada do campo, conduzida pelo programa de síntese de evidências do sistema de veteranos dos EUA e publicada nos Annals of Internal Medicine (O'Neil et al., 2017), resume esse impasse: a evidência disponível é insuficiente para concluir benefício terapêutico de cannabis à base de planta em TEPT, e os sinais observacionais de dano não podem ser descartados.
A evidência disponível é insuficiente para concluir benefício terapêutico de cannabis à base de planta em TEPT, e os sinais observacionais de dano não podem ser descartados.
É a leitura mais equilibrada disponível: nem confirma eficácia, nem confirma segurança, e recusa a tentação de escolher o estudo que confirma a narrativa preferida.
Uso prescrito e automedicação não são a mesma coisa
Vale separar dois fenômenos que aparecem misturados no debate público. De um lado, o uso terapêutico prescrito, testado em ensaio clínico, sob acompanhamento médico e com desfecho medido por instrumento validado, como nos estudos citados acima. De outro, o fenômeno cultural de veteranos e pacientes que relatam ter começado a usar cannabis por conta própria, fora de qualquer protocolo, muitas vezes antes ou à margem de qualquer diagnóstico formal ou orientação médica. Boa parte dos estudos observacionais aqui descritos, sobretudo os de desenho retrospectivo, captura parcialmente esse uso não supervisionado, e isso ajuda a explicar por que o tema ganhou força como bandeira de movimento mesmo com evidência controlada ainda fraca. Reconhecer esse uso não equivale a validá-lo como prova de eficácia: automedicação relatada e tratamento prescrito, testado e monitorado são categorias diferentes, e tratá-las como sinônimo é onde boa parte do discurso popular escorrega.
O risco do THC em quem já está vulnerável

TEPT frequentemente coexiste com sintomas dissociativos (despersonalização, desrealização, embotamento emocional) e com histórico pessoal ou familiar de outros transtornos psiquiátricos. Isso importa porque existe literatura consolidada, independente de TEPT, associando uso pesado e de início precoce de cannabis a maior risco de psicose de forma dose-dependente. Uma meta-análise de referência no tema, conduzida por Marconi et al., 2016, documenta essa relação em população geral.
Essa literatura não foi testada diretamente em pacientes com TEPT: não há, nas fontes consultadas para esta reportagem, estudo que quantifique especificamente o risco de piora de sintomas dissociativos com THC nessa população. Mas o pano de fundo é relevante: um paciente com TEPT e histórico pessoal ou familiar de psicose, ou com sintomas dissociativos proeminentes, não é o mesmo paciente que um veterano sem esses fatores de risco. Tratar "cannabis para TEPT" como uma recomendação uniforme ignora essa diferença.
No Brasil, ainda é terreno off-label
A RDC nº 1.015/2026, que passou a reger o regime de Autorização Sanitária de produtos de cannabis no país a partir de maio de 2026, regula categorias de produto, não indicações clínicas por doença. Nas fontes regulatórias consultadas, não há menção a TEPT como indicação formal de nenhum produto autorizado. O mesmo vale internacionalmente: nem a FDA nem a EMA aprovaram, até o momento, qualquer canabinoide com indicação específica para TEPT. O Epidiolex tem indicação para síndromes epilépticas específicas, e o Sativex, aprovado na União Europeia, é indicado para espasticidade em esclerose múltipla.
Na prática, isso significa que toda prescrição de cannabis medicinal para TEPT no Brasil hoje é off-label, apoiada em literatura internacional e no julgamento médico caso a caso, não em bula que ateste a indicação. Não foi localizada, até o fechamento desta reportagem, posição formal da Associação Brasileira de Psiquiatria sobre canabinoides especificamente em TEPT. Quem está mapeando vias de acesso gerais (não a indicação clínica) pode partir de como começar a jornada de cannabis medicinal no Brasil.
O que ainda falta saber
Nenhum dos estudos citados aqui compara diretamente cannabis ou canabinoides com os tratamentos já estabelecidos para TEPT: terapia cognitivo-comportamental focada em trauma, EMDR ou inibidores seletivos de recaptação de serotonina. Essa comparação direta, cabeça a cabeça, é a lacuna mais relevante do campo: sem ela, não há como saber se cannabis oferece algum ganho sobre o que a psiquiatria já usa com evidência mais consolidada, como no caso de cannabis medicinal para epilepsia, onde a base de evidência é mais robusta, ou se serve, na melhor das hipóteses, como manejo sintomático pontual (sobretudo de sono) enquanto o tratamento de base segue sendo outro.
Referências
- Bonn-Miller, M. O. et al. "The short-term impact of 3 smoked cannabis preparations versus placebo on PTSD symptoms: A randomized cross-over clinical trial." PLoS ONE, 2021. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0246990
- Jetly, R. et al. "The efficacy of nabilone, a synthetic cannabinoid, in the treatment of PTSD-associated nightmares." Psychoneuroendocrinology, 2015. https://doi.org/10.1016/j.psyneuen.2014.11.002
- Greer, G. R.; Grob, C. S.; Halberstadt, A. L. "PTSD symptom reports of patients evaluated for the New Mexico Medical Cannabis Program." Journal of Psychoactive Drugs, 2014. https://doi.org/10.1080/02791072.2013.873843
- Elms, L. et al. "Cannabidiol in the Treatment of Post-Traumatic Stress Disorder: A Case Series." Journal of Alternative and Complementary Medicine, 2019. https://doi.org/10.1089/acm.2018.0437
- Wilkinson, S. T.; Stefanovics, E.; Rosenheck, R. A. "Marijuana use is associated with worse outcomes in symptom severity and violent behavior in patients with PTSD." Journal of Clinical Psychiatry, 2015. https://doi.org/10.4088/JCP.14m09475
- O'Neil, M. E. et al. "Benefits and Harms of Plant-Based Cannabis for Posttraumatic Stress Disorder: A Systematic Review." Annals of Internal Medicine, 2017. https://doi.org/10.7326/M17-0477
- Marconi, A. et al. "Meta-analysis of the Association Between the Level of Cannabis Use and Risk of Psychosis." Schizophrenia Bulletin, 2016. https://doi.org/10.1093/schbul/sbw003
- Anvisa. RDC nº 1.015/2026, regime de Autorização Sanitária de produtos de cannabis. Diário Oficial da União, 2026. https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-anvisa-n-1.015-de-2-de-fevereiro-de-2026-684848671
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